No início da década de 80, Jeff Bridges aceitou participar de um filme tão arrojado que o figurino — contornado com pedaços de fita — precisava ser filmado em preto e branco negativo e enviado para um pequeno laboratório na Coreia do Sul, onde cada linha de luz era pintada à mão. Essa foi a gênese de Tron: Uma Odisseia Eletrônica, o primeiro longa-metragem a utilizar computação gráfica e cenários totalmente construídos de forma vetorial. O longa falhou nas bilheterias, mas virou cult e inspirou gerações de programadores. Em dezembro, estreou nos cinemas sua continuação, Tron: O Legado, passada 20 anos depois.
Jeff Bridges está lá de novo como o personagem Kevin Flynn, mas nem sinal das roupas arcaicas ou da simplicidade do mainframe quadradão original. Entretanto, a maior evolução entre as duas obras não é visual. "Nos tempos analógicos, precisávamos esperar semanas para ver o resultado dos efeitos nas roupas ou de alguma renderização de cenário. Dessa vez, o Joe (Joseph Kosinski, diretor) pôde conferir absolutamente tudo na hora", diz Steven Lisberger, produtor executivo e criador do universo de Tron.
Exceto pela identidade visual, nada sobrou da tecnologia original. "Qualquer smartphone hoje tem mais capacidade de processamento que nossos computadores na época", afirma Lisberger. "Também era preciso pensar na deterioração das cópias, algo mortal para um filme cheio de efeitos especiais." Essa ameaça continua a preocupar a vanguarda do cinema tecnológico por conta das salas, que operam no sistema 2K (padrão em câmeras e projetores digitais atuais), um delimitador de recursos. Tron: O Legado foi filmado dessa forma. "A tecnologia de projeção avançou, mas o mesmo não se pode dizer das telas, que são quase as mesmas desde 1980." Tanto Lisberger quanto Kosinski defendem a padronização do 4K como próximo passo na cinematografia CGI e 3D.
O novo longa também evoluiu ao reproduzir a feição humana digitalmente. "Não atingimos a perfeição, mas há momentos em que Jeff Bridges é replicado com exatidão em seu personagem virtual. O olho humano capta as diferenças com velocidade incrível, mas reduzimos esse abismo", diz o diretor Kosinski. "Há filmes que ainda não podem ser filmados em 3D por causa da perda de luminosidade provocada pelos óculos. O 4K vai ajudar a diminuir esse efeito. Essa mudança tem tudo para acontecer em menos de um ano."
Para o ator Bruce Boxleitner, que além de ser Tron foi o capitão Sheridan em Babylon 5, os dois Tron refletem suas épocas. "É Pong contra Halo 3", diz. "Lutei contra um pião com cara de mau em 1982. Hoje, as roupas acendem independentemente e dois atores velhos puderam colocar seus rostos em corpos jovens." Cada figurino de Tron: O Legado foi criado a partir de imagens digitais de cada ator, que foi escaneado. O filme conta uma história em um mundo binário, com Jeff Bridges fazendo as vezes de criador e criatura — e confrontando o surgimento da vida digital.
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